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A Pergunta de 1 Milhão de Dólares

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Desde que decidi me mudar para os Estados Unidos e fazer meu MBA, tenho recebido milhões de mensagens, whats app’s, emails e sinais de fumaça de todas as pessoas que já conheci em algum momento da minha vida. A pergunta que não quer calar e que todos me fazem é a básica “Vale a pena morar nos Estados Unidos?”. A resposta também é a básica “Depende”.

Depende do seu plano, depende do seu momento de vida, depende do seu estilo e, ultimamente, depende muito de suas reservas financeiras. Não dá pra se enganar a achar que tudo vai ser mil maravilhas e que sair do Brasil por si só é a solução. Além da adaptação cultural, que em si carrega uma carga emocional enorme — acredite, a cultura daqui é muito diferente da nossa, há a adaptação emocional e, principalmente se você tem filhos, você precisa prepará-los para este desafio.

As pessoas são diferentes e os costumes nem de perto se parecem com os nossos. Você não será amiga de uma família americana como você é de seus amigos no Brasil. Aqui as pessoas dão um valor imenso para a família e é com a família que eles interagem 99% das vezes. Claro, há o respeito mútuo, e diga-se de passagem aqui as pessoas conhecem a regra do ‘meu direito acaba quando o seu começa’. Bom né! Mas é assim pra tudo, mesmo para aquelas coisas que no Brasil você diria ‘ah a gente dá um jeitinho’. Não, aqui não há o famoso jeitinho brasileiro seja pro bem, seja pro mal (o seu mal, na verdade). Aqui as regras são seguidas a risca e o que pode parecer o melhor dos mundos, nem sempre é! Sabe quando você está na fila do mercado e diz assim pra caixa ‘espera só um pouquinho que eu vou ali pegar o abacaxi que eu esqueci e já volto’? Aqui você não vai. Aliás, você pode ir, mas paga o que passou no caixa antes, vai, pega a fila de novo e paga o abacaxi. Mundo ideal, se fosse nossa cultura. Você acostuma, mas algumas coisas ainda ficam buzinando na sua orelha anos depois de você já ‘estar acostumado’. E é a regra, você não a muda.

A língua é outro ponto. Primeiro que se você quer falar inglês e viver no ‘modus operanti’ americano, fuja do sul do país. As regiões norte e central tem lá suas desvantagens, como o clima, por exemplo, mas é nelas que você vai sentir que está realmente vivendo a ‘beleza americana’. A Florida é ótima. Nada tenho a falar contra o estado, as pessoas ou minha vida aqui. Mas a Florida é o nosso ‘interior’ — o country side como eles dizem aqui (tem até Rodeo Day, e é feriado!). A Florida é uma boa porta de entrada e se você pretende ficar pouco tempo, é ideal porque não vai consumir horas de seus dias na adaptação. Mas, por outro lado, para planos mais duradouros eu sugiro uma melhor estratégia. Não é novidade e você pode ‘googlear’ aí, que as melhores escolas não se encontram aqui, nem tampouco os melhores colleges (universidades) e melhores MBA’s – sim estou fazendo o meu aqui, mas confesso que sempre fica aquela pontinha de inveja de quem escolheu Stanford, Harvard, Berkley, etc. Quanto as escolas de inglês, você vai precisar de muita, mas muita força de vontade mesmo, pra falar inglês. Mais da metade (ou quase a metade, ou uma boa parte — eu sempre fui exagerada) é brasileiro, estudante, vindo do Brasil para tentar ficar. Conhece a história? E quando o sinal toca (ou a aula acaba) o português vira uma forma de comunicação quase universal. Sem contar que aqui tem cabeleireiro brasileiro, manicure brasileira, pet grooming brasileiro, lavador de carro brasileiro, ajudante de limpeza brasileira, mercado brasileiro, restaurante brasileiro … quando você vê está falando mais português do que no Brasil. Aprender o inglês não rolou e você já passou anos a fio aqui! Acontece, e muito mais do que você imagina.

As escolas públicas, caso você tenha filhos, são ótimas, realmente — para as crianças da elementary e middle schools . Mas já não se pode dizer o mesmo das High Schools. Longe de serem ruins, mas longe também do ideal. Convivências perigosas devem ser contabilizadas e todo cuidado é pouco. Alguns programas especiais de estudo garantem classes melhores para as crianças com bom desenvolvimento (e acredite, seu filho tem potencial de participar delas porque o ensino no Brasil até essa faixa etária é imensamente mais forte do que o daqui). Classes chamadas de Honor, ou programas como o IB (International Baccalaureate) e o AP (Advanced Placement) podem ser encontrados em algumas escolas apenas, portanto garanta que a escola em que seu filho vai estudar na High School possui esses programas para que você escolha o melhor bairro para sua família residir. É! Isso mesmo! Aqui se decide o bairro onde você vai morar pela escola. E normalmente os bairros tem escolas separadas para Elementary, Middle e High School. Para avaliar escolas eu indico o Great Schools (http://www.greatschools.org/). As escolas ganham suas notas por avaliações diversas e você tem que conhecer a escola também para poder avaliar de acordo com seus princípios, mas qualquer nota menor que 6 deve ser evitada. Principalmente para as Elementary e Middle. As High Schools tendem a ter notas menores. Quanto as escolas particulares, você terá que dispor de aproximadamente $20,000 por ano por aluno. E isso não conta uniforme, material, alimentação e nem tampouco transporte.

Carinho né! E olha, já vou avisar. Com a valorização do dólar e constante (muito constante) desvalorização de nossa moeda, prepare-se também para dizer ‘Whaaaat?’ quando converter o preço de tudo para o nosso querido real. Eu costumo dizer que minha vida de turista aqui era bem mais divertida – parques, outlets, malls, Olive Garden, Red Lobster, etc. Hoje as coisas se tornaram comuns e comprar é uma realidade que não me pertence. A solução seria ganhar em dólar. Mas pra isso muita água ainda vai ter que rolar nesse riacho e muita reza ainda precisa acontecer, porque a imigração está cada dia mais complicada e os vistos que antes chamavam a atenção de todos os brasileiros estão praticamente ‘entrando na malha fina’.

Mas, confesso que muita coisa boa já vivi aqui nesses 18 meses. E sei que a segurança que meus filhos tem aqui, não teriam no atual momento que o Brasil está vivendo. E não só a segurança, mas muita coisa é melhor aqui. As estradas são ótimas, a maior parte dos serviços públicos funciona melhor que no Brasil, a burocracia é também menor, de repente uma BMW ou um Porsche deixam de fazer parte da sua lista de desejos impossíveis e o melhor de tudo, você aprende que não precisa de uma casa com 7 banheiros todos brancos para ser feliz! Mas o que fica lá no fundinho do pensamento e do coração é … muita coisa é melhor, mas nada disso é ‘meu’ e de nada disso ‘faço realmente parte’. O sentimento de expatriamento* é imenso e as vezes você tem saudade não de pessoas, de coisas, de comidas, de lugares. Mas saudade de pertencer. Aí eu te pergunto ‘vale a pena morar nos Estados Unidos?’.

* O Dicionário Eletrônico Houaiss já acolhe expatriamento, mas remete-nos para expatriação, o que significa que este é o termo preferível. Eu uso expatriamento porque sou do contra! 🙂

One comment on “A Pergunta de 1 Milhão de Dólares

  1. Lidvani Paiva
    March 12, 2015
    Lidvani Paiva's avatar

    Concordo com a sua visão e hoje sinto o mesmo que você, tudo é muito bom mas não me pertence e eu já não me sinto pertencente daquele país em que nascemos. É isso é triste porque hoje o que mais quero é fazer parte desse país que tem isso tudo que você descreveu…

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This entry was posted on March 12, 2015 by .