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Quando o celular faz “tling”

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Há alguns dias atrás tomei a decisão de olhar menos para o celular e mais para a minha família.

Essa frase não soa bem, soa? Não, nem um pouco. Mas é a pura verdade e tenho que admitir que o encanto do “tling” me pegou de jeito e por um bom tempo. E você que pensava que essa doença era típica da adolescência! Não. Infelizmente eu diria que ela está concorrendo ao mal do século, juntamente com os problemas de vícios ligados a substâncias, com o TOC e com a depressão, que vem destruindo sonhos, carreiras e vidas inteiras.  Ouvir o som daquela mensagem ‘entrando’ em seu sistema neurológico e não sair automaticamente derrubando tudo (e todos) a sua frente para ver do que se trata, é quase impossível. Confesso que ainda estou em processo de cura e adaptação, mas já melhorei muito. Hoje já consigo ‘me desligar’e deixar o celular no vibra, dentro da bolsa. Aí não vale? Vale sim, claro. Tudo é um processo, deixe-me explicar.

Num primeiro passo para a ‘desintoxicação’ você tem que manter o celular distante e não pode, de maneira alguma, ouvir o som que desencadeia uma onda de adrenalina em seu cérebro e te faz esquecer onde está, com quem está e quem você é! Calma, não, ainda não chegamos nesse ponto. Mas é sempre bom ter cuidado nessa fase inicial. Assim, deixar o celular na bolsa, sem som, e estabelecer horários para ver as mensagens é uma boa pedida. Lembre-se: nesse momento quem mais importa na sua vida está com você e se alguém mais precisar realmente de sua atenção, não irá lhe mandar uma mensagem, mas ligará – e acredite, você vai notar. O passo seguinte é mais difícil. Inclui a tentação de ver e não poder tocar. Deixe o celular próximo de você, mas ainda sem som. Você vai perceber que já não incomoda tanto, mas ainda assim mantenha-se na linha. Essa fase é importantissima para a próxima e se você derrapar aqui, não vai conseguir dar os próximos passos. Deixe seu celular cair da mesa de tanto tremer se for o caso (e se ele tiver seguro, pelo amor de Deus), mas não l-e-i-a nada!

Numa terceira etapa, coloque o som, bem baixinho. Agora imagine-se à mesa de um restaurante, conversando com seus filhos sobre o dia, a semana, o mês, o ano! Meu Deus você perdeu um ano de coisas que aconteceram sem perceber! Culpa do feitiço do ‘tling’. Mas mantenha a calma, tudo está voltando ao normal. O celular está ali, no cantinho da mesa, tremendo, pulando, tling tling tling toda hora; e você está (ainda) focada em sua conversa. Aquele grupo de amigas que você conheceu um dia quando esteve na Pousada do Rio Quente (ou será que foi em Ilha Bela? Carapicuiba? Sei lá!) está trocando mensagens importantíssimas sobre uma nova dieta conhecida como a dieta do não e você não está interessada!!! Seus amigos, inimigos, ex-amigos e ex-inimigos da faculdade estão todos comentando o último vídeo do panelaço, mas você não está nem aí. Até porque, adivinha … são todos iguais! Continue firme. Nada é mais importante que a sua família e que este momento.

Agora a quarta etapa. Passando nessa, você estará praticamente curado e poderá novamente voltar a ter uma vida social, inclusive com amigos numa ‘night out’ só para adultos. A fase do apaga tudo! Comece apagando aqueles grupos que você não conhece. Parece incrível mas você deve ter provavelmente e no mínimo uns três deles. Agora os que foram criados há anos atrás e você nem sabe mais quem faz parte deles. Numa próxima fúria ou num ataque de coragem sobrenatural, apague os das pessoas chatas, dos quais você só faz parte porque ‘precisa’ – cá entre nós, você não precisa nada. Precisa é sair do ‘vício’! Pronto.  E por fim, apague os grupos duplicados, triplicados, quadruplicados … sabe aqueles que as pessoas vão criando e criando e criando e … poxa vida, olha que coisa – são todos com os mesmos integrantes! Agora conte. Aposto que você tem pelo menos uns dez grupinhos a menos. Ufa! Você conseguiu!

Nada é mais libertador do que não precisar ler todas as mensagens que chegam em seu celular. E nada é melhor do que poder curtir um papo com amigos ou com sua família sem a presença chata, persistente e contínua do ‘tling’. Nós estamos nos separando cada vez mais do convívio social por causa das mensagens, dos aplicativos, das redes sociais — sem contar esse magnífico, esclarecedor, engraçado, interessante e delicioso blog! — e de toda uma parafernália tecnológica que nos oprime e nos impede de participar, de contribuir, de vivenciar. Não digo que isso tudo tenha que ser esquecido. Não acho isso. Mas acho que perdemos o controle, não sabemos mais balancear. Brigamos com nossos filhos a todo momento e dizemos ‘saia já desse telefone, não sei o que tanto você fala com seus amigos!’, mas não percebemos que estamos fazendo o mesmo. E nós dizemos que demos os celulares para que eles possam se comunicar conosco em caso de uma urgência … Nop. Mentira. Nós demos, damos e continuamos a fazer todos os upgrades de modelos de novos celulares para nossos filhos porque (1) quando são menores, nos dão menos trabalho se estão distraídos (é ou não é?) e (2) quando crescem pedem tanto e são tão insistentes que acabamos cedendo para, de novo, termos tranquilidade. E estamos criando monstrinhos – os monstrinhos do ‘tling’!

Já está na hora de revertermos essa situação. E não dá pra pedir isso pra uma criança de 13, 14 anos (sim para mim ainda são crianças), se nós mesmos não conseguimos seguir o ‘tratamento’, não é? Portanto aqui vai um apelo. Vamos melhorar esse mundo, vamos estimular a comunicação, vamos ligar para nossos amigos distantes quando fazem aniversário e nunca mais mandar aquelas mensagens copiadas do google (calma, eu também já fiz isso!). Vamos bater na porta dos amigos que moram perto de nós para ganhar e dar aquele abraço amigo, caseiro, ao vivo e a cores. Nada nesse mundo pode, ou deve, superar a vontade de estar junto, de abraçar, de beijar, de conversar, de falar baixinho no pé do ouvido, de gritar juntos com as amigas, de cantar junto, de vibrar … de viver intensamente!

Vamos viver melhor, e de preferência sem o ‘tling’ …

Assista: https://youtu.be/z2o2Vz7XDhg

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This entry was posted on March 13, 2015 by .