Lembro-me como se fosse ontem de uma conversa que tive com um ex-diretor (o CHEFE) ao qual eu me reportava, numa das muitas empresas pelas quais passei (a FIRMA). Ele acabara de ser promovido e havíamos acabado de fazer uma comemoração em homenagem ao seu (o dele) novo (e alto) cargo. E eu perguntei qual a sensação de alcançar o ponto mais alto da carreira, ganhar muito bem, poder ter o que quiser! Ele, sem exitar, me respondeu ‘não sei, não pensei nisso!’ . Como assim? Eu estava perplexa, assustada, irritada até! O cara não dava valor ou estava tirando uma com a minha cara! E enquanto eu desenvolvia aquela raiva instantãnea dentro de minha alma – tipo miojo que fica pronto em 3 minutos ou sal de fruta que quando você coloca na água é só um pozinho inofensivo e, de repente, sobe, faz bolha e derrama do copo – ele continuou. ‘Eu tenho mais de 50 anos, nunca tirei férias de mais de 15 dias na vida, tenho 4 passaportes todos cheios com vistos e carimbos de todos os 4 cantos do mundo, para os quais sempre viajei sozinho e a trabalho, tenho 3 filhos mas não vi nenhum deles começar a andar ou falar a primeira palavra, tenho uma casa de 5 quartos e nem sei quantos banheiros onde nunca encontro minha familia já que cada um tem pelo menos 100m2 próprios, tenho um carro grande que me leva sempre sozinho pra reuniōes infindáveis e que aos finais de semana fica parado porque trabalhei demais na semana e não me sobrou vontade nem energia para nada no sábado e no domingo, tenho uma linda casa de praia para a qual não vou há mais de 1 ano … e agora tenho um cargo que vai me ajudar a aumentar essa lista! Alguns dos itens dela nunca me fariam falta se não os tivesse, outros nunca me serviram pra nada e de outros não poderei usufruir nunca mais, como da infância de minhas crianças. Portanto eu não sei a resposta à sua pergunta. Apenas sei que não é como eu esperava e como sonhei ser durante 40 anos da minha vida!’ E então ele pediu licença e saiu. Eu ali. Ouvindo aquele desabafo e pensando: DOIDO DE PEDRA!
Pois bem. Passaram-se vinte e oito anos desde essa conversa e hoje, não sei se poque a vida me ensinou ou se porque decidi ouvir por entre suas palavras, compreendo e assino embaixo tudo o que ouvi dele naquele dia. Ainda tenho sonhos e ambiçōes, claro. Mas já não acho que TER é mais importante que SER ou que ESTAR! Ter é passageiro, é um prazer que se esgota e que se esvai quando a gente entende que ter sem viver não vale a pena. As viagens com a família, os dias de chuva que você passou inteiros de pijama assistindo a maratona Friends, aquela manhã linda de sol que você curtiu jogando futebol com seu filho, os passeios de mão dada com seu amor pela praia num entardecer quase melancólico, o chop com os amigos (no meu caso o vinho porque sou fina e tenho melhor gosto – brincadeirinha), os churrascos de domingo com a turma da faculdade, ver a expressão no rosto de seu filho quando ele entra nos portōes do Magic Kingdom pela primeira vez ou a cara de boba de sua esposa (eu fiz e acredite toda mulher faz!) quando a Torre Eifel se ascende ao cair tardio da noite em Paris numa noite de verão, cantar alto no carro aquele rock da ‘sua época’ e ver a cara de ‘que que ele tá fazendo tá louco o véio’ da sua filha! Isso vale a pena. E pra isso tudo você não precisar TER muita coisa. Precisa SER uma pessoa presente, precisa ESTAR ao lado de quem vale a pena, precisa VIVER.
E se vivos estamos, que possamos começar, então, a dar valor às coisas que realmente importam. Abandonar tudo e virar heremita? Não. A idéia não é bem essa. Mas viver o hoje e ser feliz pelo simples fato de que você nunca perdeu uma festinha de seus filhos, nunca esqueceu as datas comemorativas importantes e sempre esteve com quem importava nesses dias, viveu cada segundo importante na vida de sua família, esteve presente nos momentos em que eles precisaram de você e os teve por perto nos seus dias de ‘fúria’, conheceu os poucos lugares carimbados no seu passaporte não da janela de um hotel de negócios ou de uma sala de reuniōes, mas de cima da montanha mais alta ou do desafiador teleférico de 1930!!! Ser feliz e sorrir porque se hoje alguém perguntar a você como é não ter chegado ao ponto mais alto de sua carreira, nem ter tudo o que você um dia sonhou, morar numa casinha pequena, nåo ter um carro importado off-white perolizado com bancos de pelica e painel digital totalmente incorporado à filosofia moderna-contemporânea-impressionista do seu novo carro (é assim mesmo!) e como é precisar fazer contas e contas para ver se vai dar pra levar a galera pra jantar fora … você vai responder ‘É bom demais e só do que lembro é que passou rápido, mas valeu muito a pena!
Os anos passam. A vida voa. Pense no que é realmente importante pra você AGORA!
❤️❤️❤️
Pra você meu marido, amigo, companheiro, confidente e verdadeiro amor!!! Parabéns pelos seu aniversário e que juntos possamos dar valor apenas ao que importa (e sempre) como você me ensinou nesses tantos anos!