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A triste realidade de se ter tudo o que se deseja 

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Essa semana um vídeo de um jovem americano de 18 anos que se formou com honras no High School me chamou a atenção. Não somente pelo feito, que em si só já merecia minha atenção, mas pela condição em que esse garoto conseguiu alcançar essa vitória. Griffin, seu nome, é desde os 6 anos de idade, um morador de rua, quando sua mãe morreu e seu pai não encontrou as forças necessárias, nem as oportunidades provavelmente, de continuar lutando.  Em sua entrevista Griffin diz que nunca desanimou, mesmo diante da fome, que muitas noites o assombrava e o levava a ter pesadelos. Nunca pensou em desistir. Nunca deixou de ir um dia a aula. Nunca deixou de entregar um trabalho sequer, ou perdeu uma prova. Sempre teve as melhores notas e durante todos esses anos de luta conquistou o respeito e carinho de seus professores e amigos. Griffin disse que ele conseguiu realizar seu sonho e que, embora difícil, era sua única saída. Inúmeras foram as vezes em que ouviu que jamais alcançaria seu ideal e que estudar estava longe de suas possibilidades. Mas hoje, após uma caminhada nada fácil mas realmente enriquecedora, ele se prepara para cursar engenharia e já foi aceito por várias universidades americanas.

Griffin teve uma coisa que nem eu nem meus filhos nunca tiveram — nem talvez os seus. Ele teve muitas dificuldades. Ele teve que agarrar seu sonho com as duas mãos e teve que ‘matar vários leōes’ todos os dias para chegar aonde chegou. E isso me fez refletir. Porque as coisas fáceis não nos tornam fortes? Porque ter tudo o que desejamos nos faz mais fracos? Porque o caminho menor, nem sempre é o melhor?

Se me perguntassem quando nasci, eu certamente escolheria a minha vida e não a dele e teria certeza de que seria muito mais feliz assim. Mas cá entre nós, senti uma ponta de inveja de Griffin ao vê-lo chorar e declarar que tudo o que ele fez foi para garantir que nunca um filho seu passasse pelo que ele passou e para ter certeza de que ele jamais voltaria para a ‘vida de homeless’. Senti inveja da força, da garra, da coragem que esse menino teve que ter pra chegar ali. E ao mesmo tempo, senti raiva de mim mesma porque tantas vezes reclamo por tão pouco. Porque tantas vezes desisti de meus sonhos sem nem mesmo ter lutado por eles. Porque insistentemente eu me ponho triste por problemas tão insignificantes e por motivos tão superficiais.

Griffin, ao contrário de ‘me’, ‘myself’, eu mesma, ia dormir numa noite, sem saber se na próxima teria uma cama ou dormiria ao relento. Griffin tomava seu leite e comia seu pedaço de pão numa determinada manhã sem imaginar o que comeria no resto do dia – ou se comeria. Griffin se vestia para ir a escola apenas quando a vida lhe permitia trocar de roupa; na maior parte das vezes ele nem mesmo podia se dar ao luxo de tomar um banho. Eu reclamo porque meu colchão Beauty Rest está desconfortável e porque minha janela não tem black out, o que me faz acordar todos os dias em minha ‘king size bed’ com muita luz em meus preciosos olhinhos. Reclamo porque não aguento mais pensar no que vou preparar de comida para minha família comer todos os dias – e imagine só, tenho que ir ao mercado quase todos os dias porque sempre falta algo! Reclamo porque se eu e minhas duas filhas tomarmos banho ao mesmo tempo, a água fica morna! Reclamo porque cansei de ter que escolher uma roupa diferente todo dia! Reclamo porque tenho muita roupa pra lavar! Reclamo reclamo reclamo e pior, já perpetuei essa prática passando de mãe para filha a capacidade inigualável de reclamar de tudo o que tenho! Porque é assim mesmo! Nós reclamamos de tudo o que temos! E nossos filhos aprendem rapidinho e com muita perspicácia.

A grande verdade é que temos quase tudo o que desejamos ter e desejamos sempre algo maior ao alcançar nossos desejos iniciais. Criamos um círculo vicioso de querer e poder, no qual nada mais nos satisfaz. Carros, roupas, jóias, viagens, bolsas, sapatos, mais carros, mais roupas, mais viagens. Queremos a estrela e quando ela nos é dada, já nos imaginamos donos do céu. Nossos limites são definidos não com base nos nossos sonhos ou no nosso potencial, mas em nossa cobiça, em nossa preguiça, em nossa ganância e em nossos ‘vizinhos’. Queremos ter mais pra mostrar mais, mas não paramos pra medir se o que temos não está bom! Buscamos nos realizar em coisas e não em açōes e ficamos ‘correndo atrás do rabo’ indefinidamente sem perceber que o ‘rabo’ já está ali, já é nosso!  Na maior parte das vezes nossos problemas são resolvidos com um telefonema e com uma nota de $100 dólares! Nós não sabemos o que é passar fome. Nunca passamos frio mais do que algumas horas. Sempre tivemos alguém pra ligar numa emergência e raramente tivemos que dizer NÃO a nossos filhos.

Pois bem. Talvez esteja na hora de começar. Claro que não estou sugerindo um novo assentamento de sem-tetos nem mesmo o nascimento de uma comunidade alternativa com a missão do desapego e da liberação total dos bens materiais – e lógico que eu sei que tudo o que temos foi fruto de muito trabalho! Mas não custa tentar ver o outro lado sem aquela expressão de ‘credo eu heim!’.

Nem todo mundo escolheu viver nas ruas e isso não pode definir o que uma pessoa é ou será! Vamos ensinar isso a nossos filhos, vamos dizer a eles em alto e bom tom que não dá pra ter tudo o que se quer, mas que podemos sonhar e lutar pra conseguir realizar esse sonho. Vamos dar a eles a chance da escolha ao invés de comprar tudo o que exigem e dar espaço para a imaginação, para a conquista, para a realização daquele sonho. Vamos proporcionar a eles a dor de um NÃO pra que possam dar mais valor ao SIM. Vamos ajudá-los a encontrar soluçōes para seus dilemas ao invés de colocar dinheiro em suas carteiras para que eles comprem essas soluçōes. Vamos dar mesada pra que saibam o valor das coisas e pedir que nos paguem um jantar um dia para que sintam orgulho te poderem fazer isso! Vamos incentivá-los a dividir o quarto e a TV com seus irmãos ao invés de comprar casas cada vez maiores para acomodar seus egos (e seus milhōes de pertences). Vamos deixar que se percam um dia no shopping (com o celular, claro) para que nos encontrar volte a ser um momento de alegria! Vamos deixá-los andar de bicicleta sem joelheiras para que os tombos signifiquem algo e para que eles aprendam que cair dói, por isso manter-se alerta é sempre necessário! E vamos também permitir que façam bolo em nossa cozinha super limpa, mas pedir que nos ajudem a limpá-la depois. Podemos dar a eles um carro quando crescerem, mas vamos deixar que eles trabalhem para pagar a gasolina. Vamos pagar a faculdade … mas vamos exigir que tenham notas boas e que dêem valor a tudo o que lhes demos a vida inteira.

Griffin aprendeu tudo isso da maneira mais difícil do mundo. E se tornou um homem comprometido e responsável. Grato e leal. Ele não teve tudo o que desejava, mas nem por isso deixou de agarrar com força tudo o que pôde ter. E foi assim, vivendo como dava, que ele se tornou digno de honras e de um futuro controlado por ele e desenhado com muita dignidade e muito esforço. Griffin é um exemplo de que nem sempre precisamos ter tudo o que amamos pra sermos felizes, mas precisamos amar tudo o que temos. E acima disso, precisamos lutar para que não nos tomem, nem realizem por nós, a coisa mais importante de todas – nossos sonhos! Sem eles somos apenas matéria. Sem eles seremos apenas ‘sem teto’, sem ideais, sem futuro, sem coragem!E nunca nos livraremos da triste realidade de ter tudo o que desejamos … sem nem ao menos termos sonhado com nossa vitória.

Quer conhecer a história de Griffin? Acesse http://sharepowered.com/teen-named-valedictorian-shocks-his-classmates-when-he-reveals-hes-homeless/.

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This entry was posted on May 27, 2015 by .