Quando eu era pequena, ou mais nova, melhor dizendo (bem mais nova, aliás), eu colecionava aquelas figurinhas do AMAR Ë … e uma delas dizia: Amar é gostar tanto de uma pessoa, que dói. Eu sinceramente não entendia e não sabia como poderia amar alguém e sentir dor por esse amor. Na minha cabeça era mais algo do tipo, não tinham mais o que escrever e inventaram essa ‘baboseira’ (ou para quem não sabe o que é baboseira, leia-se besteira; dá na mesma).
Já um pouco mais velha, na época dos amores impossíveis que todas nós, meninas acreditando sermos mulheres, nutríamos por alguém famoso, rico, lindo e de preferência alto, magro e simpático. Era a época de adorar, gritar, idolatrar os cantores e bandas, principalmente as bandas porque daí cada amiga sua podia gostar de alguém diferente de você e quando todos se casassem seriam amigos pra sempre! Ahhh os anos 80! A-Ha, Duran Duran, RPM, Ira, Pet Shop Boys, Biquini Cavadão, New Order, Plebe Rude, Engenheiros do Havaí, Paralamas, Capital Inicial, Simple Minds, Bon Jovi, Titãs, Barão Vermelho … e Menudo, claro! Então, como num passe de mágica eu comecei a entender os ‘peladinhos’ do Amar é … doía tanto, mas tanto, mas tanto amar e não ser correspondida (nem conhecida, cá pra nós) por seu ídolo. Você tinha certeza absoluta que um dia seriam ‘íntimos’, não é? Mas, de repente, naquele show no Morumbi com mais 50 centenas de meninas iguais a você gritando por ele, você entendeu que … hum, na verdade, não! Não ia rolar. E doeu pacas. Só que … adivinha, você superou e descobriu um pouco mais tarde – tá legal, algumas descobriram bem mais tarde – que não era amor … era curtição, paixão, vibração. E a famosa frase do Amar é … continuava sem sentido.
Você então começou o colegial, segundo grau, ensino Médio, High School – afe gente, aquele em que você fingia que era adulta e pedia pro seu pai te deixar a um quarteirão da escola pra não pagar pato (caraca, acho que não ouço essa expressão há mais de 100 anos). E no High School (fica tão mais chique em inglês!) você conheceu seu primeiro amor. Por uma coincidência bruta do destino, ele provavelmente também não tinha idéia de sua existência, assim como o Roy-Ray-Ricky-Robin, mas você já tinha dado um passo gigantesco em rumo ao seu futuro brilhante como esposa nota 10: dessa vez ele não era famoso e só havia mais umas 10 ou 15 meninas a fim dele. A fila tinha diminuído muito e você estava feliz e esperança era seu mais novo sentimento amigo. Você tentou de tudo pra ele te ver, te olhar e ‘te agarrar’ (que as freiras do Sagrado Coração não me ouçam). Mas, mais uma vez, o cruel e desolador destino te pregava uma peça. E agora sim. Você sabia o quanto ‘amar podia doer”. Mas … ‘guess what?’. Aquele também não era o amor que doía dos fofuchos peladinhos do Amar é … e mais uma vez, você pensou: tudo um grande embromo (também sinônimo do nosso querido ‘besteira’).
Você então cresceu (você né, porque eu continuei naquela estatura média pra bem pequena). Mas enfim, ficamos mais velhas, mais experientes, já tinhamos vivido algumas relações – umas boas e umas milhões de outras péssimas – e aparentemente já sabíamos bem o que era amor de verdade. Daí tomamos o famoso ‘pé na bunda’ e, adivinha? D O E U !!!! Mas doeu, na boa, muito mais porque deu raiva, ódio, aversão, animosidade, fúria, sanha, rancor, odiosidade, malquerença, ira, gana, cólera e horror, do que de amor mesmo. Foi uma puta injustiça e pra falar a verdade, você jamais admitiria que estava doendo; até mesmo porque você nem admitia mais que tivera sido amor. Morre desgraçado! Era tudo o que você podia pensar. Num ataque de loucura, você seria capaz até de rasgar a coleção inteira daquelas figurinhas idiotas do Amar é … Afinal amor nem existia não é verdade?
Não era … verdade. E depois de alguns anos você descobriu isso. Parecia uma princesa de branco e ele, ahhhh ele! Seu peladinho pessoal (no bom sentido, o menininho do Amar é …) era o ‘the best’. Principalmente porque ele estava ali, se casando com você! Apesar de tudo e de todos (ou melhor dizendo, TODAS as outras) ele veio, foi ficando e se instalou. Deu super certo, rolou uma química, já tava na hora, todo mundo tava casando … seja como for, aconteceu. E depois de alguns meses (ou dias, ou horas, sei lá … muda de casal pra casal, sabe!) você brigaram feio e … DOEU! Doeu muito mais dessa vez. Deu até uma pontada no coração. Deu um frio na espinha, adormeceu o braço. Quando ele bateu a porta e disse ‘Fui” foi pior que dor de dente misturada com cólica e unha encravada tudo junto. E como já era hora, a dor ficou. Te fez ver as coisas de maneira diferente, te fez crescer, te fez entender que nem sempre é você quem tem razão, te fez dar valor aos dias bons, aos sorrisos, aos passeios de mão dada, aos ‘Bom Dia Meu Amor’, ao primeiro beijo, ao abraço apertado, ao ombro amigo, ao companheiro de todos os filmes. E então, ele voltou. E vocês fizeram as pazes. Mas daquele momento em diante você sabia que aquela velha figurinha era ‘de verdade’. E que, felizmente ou infelizmente, ainda ia doer mais vezes, mas que era uma dor boa. Uma dor de quem pertence, faz parte, AMA DE VERDADE!
Tantas foram, depois dessa, as vezes em que você se lembrou daquele momento, dos ‘peladinhos’ e daquela frase:Amar é gostar tanto de uma pessoa, que dói. Quando seu primeiro cão morreu, quando seus avós se foram, quando seu filho caiu, quando tiraram sarro da sua filha, quando seu melhor amigo se mudou pra muito longe, quando as crianças foram fazer intercâmbio na Europa, quando as brigas na família afastaram de você pessoas tão queridas, quando você perdeu alguém para uma doença terrível, quando seu pai – sem dizer Adeus – também teve que ir, quando seu gato sumiu e quando o outro foi diagnosticado com uma doença genética sem cura … A dor é implacável, colossal, enorme, desmedida, gigantesca e profunda. E quase tudo te faz lembrar dela. Mas, como tudo na vida, ela também vai passar e você vai entender que amar dói sim, mas viver sem amar é pior. Porque tudo na vida vale a pena, ainda mais o amor. Se você não ganha, aprende! E assim vamos nós, aprendendo, amando, vivendo … e como não podia deixar de ser … às vezes, doendo.