
Impossível dizer o quanto viver fora do país muda você. A percepção vem com o tempo e muitas vezes os outros percebem antes de você mesmo. O que você era antes não se apaga, mas a mescla muitas vezes faz você parar e pensar: caramba, pra que time eu torço mesmo?
Uma nova cultura não entra assim na sua vida do dia pra noite. No entanto, viver fora do seu país te obriga a entender, ver e fazer as coisas de maneira diferente. Algumas vezes melhor do que você fazia antes; outras nem tanto, mas simplesmente porque você agora mora nesse outro país, faz parte dessa outra cultura, vive nesse outro mundo, você acaba por assimilar inclusive as coisas que, não tão boas quanto as que você tinha antes, fazem agora parte de sua vida.
E no dia a dia, com a vida correndo a 200 por hora, as coisas passam despercebido. Não é que você vira ‘americano’, por exemplo no meu caso que me mudei para os Estados Unidos há 2 anos e meio. Você não se torna americano, ou italiano, ou espanhol, ou australiano, ou seja lá o que for e seja lá pra onde você for. Mas é impossível desprezar o fato de que, aos poucos, muitas das coisas que te incomodavam na ‘nova terra’ passam a ser normais pra você. E vice-versa. O que era tão normal lá do outro lado do mundo, agora te parece muito distante e, muitas vezes, meio ‘nada a ver’ com você. A gente muda, a gente se adapta, a gente incorpora. E isso é necessário pra sobreviver fora de seu próprio ninho, é natural.
Mas de repente você se vê dividido. E aquela pergunta vem imediatamente a sua cabeça: se hoje eu tivesse que torcer a favor de um dos países em detrimento do outro, seja devido a um jogo, a um acordo político, ou a uma guerra, pensando no extremo maior possível, para qual deles eu ‘torceria’. Eu não sou americana, mas posso dizer com 100% de certeza que meu corpo, minha razão e meu coração amam os Estados Unidos por muitos motivos e, ironicamente, quase que pelos mesmos motivos que, opostamente, odeiam o Brasil: falta de segurança, roubalheira pública, descaso com a educação, falta de regras e de leis, impunidade soberana, clara divisão entre as classes que podem e as que não podem e o iminente assassinato da classe média. Entre outros tantos fatores que me fizeram sair do país e escolher os Estados Unidos para criar minhas filhas e dar a elas um futuro melhor, esses foram os que mais pesaram. E hoje são os que mais levo em conta quando penso no porque de estarmos aqui, vivendo tão longe de nossas raízes e tendo que, dia a dia, nos adaptar a um mundo completamente diferente daquele em que fomos criados.
Se por um lado sinto saudade (tanta) de tanta gente e de tanta coisa, por outro sinto-me em paz quando penso em minha escolha. Paz que dura pouco porque a saudade invade a cada minuto e vem cheia de vontade, me lembrando de coisas e pessoas que não tenho aqui e que não poderei ter. É uma escolha difícil e doída, mas ao mesmo tempo, segura e racional. Mas ainda assim: pra quem eu ‘torceria’? É estranho pensar nisso. Leva você a avaliar muita coisa. Por exemplo, hoje eu olho para minhas filhas e as vejo muito mais como americanas do que como brasileiras (e olha que eu moro aqui há pouco tempo se você considerar o tempo de vida que já vivemos – eu e minha família). Elas não tem saudade das coisas; e a saudade das pessoas não é suficiente para elas optarem pelo Brasil. Sim, elas já não pensam em voltar e muito menos e ‘ser brasileiras’. Eu fico em cima do muro ainda; acho que preciso de mais tempo para decidir pra quem eu ‘torceria’. Claro que se o Brasil se tornasse um país diferente, se pudéssemos não pensar no medo de andar nas ruas, se pudéssemos acreditar num novo e decente governo, se tivéssemos a chance de educar melhor as crianças independentemente de seu status ou de seu CEP, se soubéssemos que os criminosos seriam culpados, condenados e que efetivamente cumpririam suas penas, se pudéssemos confiar em nossa polícia e se acreditássemos num futuro promissor para nossos filhos … acho que meu coração ainda seria Brasileiro. Mas hoje já não sei mais.
Não, não vivo num mundo perfeito; os Estados Unidos também têm muitos problemas. Mas acompanhando de perto a disputa, não consigo estabelecer uma forma justa de comparação. Como disse minha filha há algum tempo atrás, “aqui mamãe a gente sorri mais”. Porque? Simples. Porque a gente pode ser assaltado, sim, mas a chance é imensamente pequena. Porque eu posso sim não gostar da escola pública e decidir pagar uma escola particular, mas a chance é imensamente pequena. Porque eu vejo o noticiário e vejo que alguns políticos não são exatamente a cereja do bolo e poder se safar, mas a chance é imensamente pequena. Porque o Presidente dos Estados Unidos pode vir a ser alguém que não pense em seu país, mas em sí próprio e em seu enriquecimento, mas a chance é imensamente pequena. Porque eu posso até conhecer alguém que se imagine melhor do que eu porque tem um carro e uma casa melhores, mas a chance é imensamente pequena. Porque minha filha pode não conseguir entrar numa das melhores faculdades do país em prol de filhos de pessoas mais ricas ou mais influentes, mas a chance … não … sem chance nesse caso. Enfim … porque a vida pode se tornar mais difícil aqui, mas a chance é mínima.
E quando penso nisso tudo a saudade do pão de queijo, da pizza, do pastel da barraca da feira, das festas, dos restaurantes mais que deliciosamente maravilhosos, da manicure toda semana, da babá, da ajudante diária da casa, da cozinheira, e de tanta coisa mais, simplesmente se apaga. Fica a saudade de pessoas, da minha família, amigos. Mas aí eu lembro sabe do que? Do Skype, do Facetime, do Facebook, do Whats app; lembro que dá pra ligar sem pagar nada agora e que posso efetivamente vê-los. E embora a saudade de abraçar ainda paire no ar, eu lembro do avião. E então eu penso: acho que meu coração está começando a decidir pra quem ele torceria!
De qualquer maneira, todos nós que decidimos mudar de país, somos parte de duas nações. E dela faremos parte por toda a vida. O legal disso tudo é que ao unirmos duas culturas completamente diferentes estamos criando uma terceira. E num futuro não muito distante, tenho certeza de que essas junções mundo afora tornarão o mundo muito melhor, porque trazemos o melhor de nós para unirmos ao melhor que existe no resto do mundo!