
Sempre me ensinaram que eu deveria agradecer todos os dias por tudo o que tenho. E no meu caso agradecer nunca foi dificil. Eu tive pais ótimos que realmente me educaram para a vida. Tive oportunidade de estudar e com muito esforço, mas também com a ajuda Dele lá em cima, consegui me formar na profissão que eu amava. Trabalhei muito, mas sempre tive meu desempenho e minha criatividade reconhecidos por meu pares e superiores. Me casei com um homem do bem, da paz, um cara familia, discreto, leal, por quem eu me apaixonei muito jovem, mas com quem continuo caminhando de mão dadas há 23 anos – completados no ultimo dia 20. Tive uma gravidez complicada e com 28 semanas minha primeira filha nascia, prematura, pequena, indefesa e com muitos desafios pela frente. Ela venceu todos e hoje é minha companheira, amiga e, pasmem, conselheira. Com 14 anos traz em sua cabecinha muito mais juizo e conhecimento do que fui capaz de juntar em 47 anos de vida. E quando a vida parecia estar acalmando, Ele me mandou minha segunda filha. Desde o inicio um desafio: brava, personalidade forte, esperta e muito (muito) manipuladora. Meu ying e meu yang ao mesmo tempo. Tem me ensinado muito com suas tempestades temperamentais e com os lindos arco-iris que surgem depois delas.
E por tudo isso e muito mais, sempre fui grata. As vezes chegava a pensar que meu mundo era perfeito demais pra ser verdade. E tive medo. Mas a vida ensina até nisso. Perder faz parte e, muito mais cedo do que imaginava, perdi ele, a pessoa na qual me espelhei a vida toda e com quem criei laços impossiveis de serem desatados, meu pai. Se foi cedo demais e então comecei a entender que a vida nos pregava peças que tinhamos que aceitar … e ainda assim agradecer por todo o resto que ainda estava lá. Por toda a vida e a alegria que continuavam a me rodear. Problemas apareceram e desapareceram na mesma intensidade e velocidade. Sempre uma sucessão de altos picos com as mais belas vistas, e grandes planícies com muitos obstáculos a serem transpostos. Alguns problemas pude resolver, outros se resolveram com o tempo e outros, bem … outros continuam aí.
E da mesma forma que a gente aprende a agradecer a gente aprende a aceitar. Aceitamos pegar 2 horas de transito todos os dias para chegar a um trabalho que não nos faz feliz, aceitamos abdicar à criação de nossos próprios filhos em função de nossas carreiras, aceitamos engolir sapos de pessoas que muitas vezes deveriam aprender conosco, aceitamos a não discutir nossos anseios para que a ‘ordem natural das coisas’ não seja alterada. E assim aceitamos um destino que dia a dia simplesmente acontece! A vida passa, os dias se vão, você envelhece e, embora ainda tenha muito a agradecer, percebe que aceitou muita coisa que não estava no script. E aí você pensa, poxa agora é tarde. Novidade pra você: nunca é tarde. Nem pra agradecer e nem para mudar o que você precisa mudar.
A gente não pode aceitar ser roubado, ser maltratado, ser ignorado, ser negligenciado, ser acorrentado, ser ‘entitulado’, ser afastado, sem sepultado enquanto houver um sopro de vida, de esperança e de vontade. Admiro quem luta, independente da idade ou do status – quem tem coragem de mudar o que precisa ser mudado e enfrentar o futuro com a cabeça aberta. Admiro quem não tem medo da luta e muito menos da batalha. Acho o máximo quem consegue emagrecer 12, 15, 20 kilos. Ou quem se forma numa faculdade depois de passar da fase adulta. Admiro quem vai a luta e alcança todos os objetivos de vida que se propos há anos atrás. Ou ainda quem decide, depois dos 50 ou 60, que ainda há tempo pra se propor novos objetivos. Amo as pessoas que se dedicam de corpo e alma seja à familia, a um esporte, a um hobbie ou a uma causa. Gosto de pessoas que não aceitam e que lutam por aquilo em que acreditam. Ainda mais aquelas que, mesmo não tendo alcançado a plenitude de seus ideais, nunca se esquecem de agradecer e de continuar não aceitando o que não querem.
Eu não aceito muitas coisas. Algumas posso mudar – e caminho todos os dias fazendo ajustes no decorrer da trilha. Outras não pertencem a minha alçada e ainda que eu quisesse, jamais teria como mover. Mas ainda assim, não aceitar faz de mim alguém que busca, ainda que na escuridão, uma maneira de sair e encontrar um novo caminho. E eu agradeço por isso. Não aceito politicos ladrōes, nem terroristas facistas e ignorantes, nem a desigualdade moral e social, nem o preconceito de raça, nacionalidade, religião ou sexo, nem os crimes odiondos, nem a corrupção, nem a falsidade, nem a guerra. E se não posso me levantar com armas de fogo contra essas atrocidades, levanto minha voz, escrevo, assino petiçōes, crio maneiras de comunicar e informar.
E agradeço, enfim, pelo poder de não aceitar. Porque só assim estarei sempre contribuindo para um mundo melhor. Porque só assim tenho a certeza de que de alguma forma estou agindo para a mudança, para a evolução e para que no futuro muitas outras pessoas possam, assim como eu, agradecer e não aceitar!