
Cada dia que passa mais me questiono sobre as escolhas que faço e sobre as que fazem as pessoas que me cercam. Sempre me lembro de algo que ouvi de um professor na faculdade. Ele disse: “O que você se torna é resultado das escolhas que você faz na vida”. Hoje, já com mais da minha vida vivida, acredito 100% que essa frase é, não só extremamente verdadeira, mas algo que vem me guiando durante boa parte desses últimos anos. A idade traz as inevitáveis rugas e cabelos brancos, mas traz também uma serenidade absurda. Muda nosso ponto de vista a respeito de muita coisa, e principalmente, nos direciona a melhores escolhas. E uma das coisas que tenho feito questão absoluta de escolher ultimamente é ‘ser gentil’.
O mundo precisa de mais gentileza. Muita guerra, muita discussão, muita gente desligando o telefone sem dizer ‘tenha um bom dia’, muitos jovens preocupados com a carreira sem pensar em manter amizades pra vida inteira, muitos vizinhos que não se conhecem e quando se encontram no elevador fingem estar falando ao telefone para não precisar ‘bater papo’, muita gente irritada porque o motorista da frente está dirigindo a 23 milhas por hora num local onde o permitido são 25, chefes sem paciência para ensinar e com muita vontade de mandar, amigos que já não se abraçam porque as conversas são pelo whatsapp. Se eu lançar um desafio aqui e você tiver que sair, tocar campainha no seu vizinho e pedir um pouco de açucar, acha que conseguiria o açucar? Tantas variáveis pra isso não dar certo não é verdade: (1) você está ocupada nesse momento; (2) não faz a mínima idéia de quem é seu vizinho; (3) o vizinho pode não atender simplesmente porque olha pela fresta da cortina e não sabe o que você está fazendo lá; (4) não há vizinhos em casa porque a vida deles é agitada demais; (5) e se você os conhece, porque não mandar uma mensagem antes para ver se eles tem o açucar primeiro? – nessa última opção provavelmente seria combinado de você pegar o açucar na porta! É o mundo está mudando.
As relações pessoais são cada vez menos importantes, e somos considerados pessoas esquisitas porque ligamos ao invés de teclar, porque falamos bom dia no elevador, porque paramos para ajudar uma pessoa perdida, porque damos carona para alguém que vai ao mesmo local que vamos, porque perguntamos se querem carona, porque abraçamos com força e (sim) damos beijos em quase todo mundo, porque sorrimos para quem nos olha, porque brincamos com a criança do carro do lado, porque falamos com estranhos na fila do mercado e principalmente porque nos propomos a ajudar quem nem sequer nos pediu ajuda. Porque dizemos por favor e obrigado. Porque nos negamos a fazer bullying com alguém. Porque não queremos participar das fofocas ao nosso redor. Porque entendemos que cada um tem seus motivos para viver a vida que escolheu. Porque aceitamos as diferenças. Porque somos gentis.
Ser gentil hoje em dia é sinal de fraqueza, de senioridade, de falta e prioridade, de falta do que fazer. Algumas vezes, sinal de loucura. “Aquele cara não bate bem; ele fala bom dia pra todo mundo e quando as pessoas respondem ele sorri pra elas” – provavelmente um psicopata! Simplesmente porque as pessoas esqueceram do significado de gentileza.
Eu decidi mudar isso há algum tempo. Podem me chamar de louca mas paro meu carro e deixo todo mundo atravessar a rua calmamente, digo bom dia pra todo mundo que me permite, não me importo quando o garçom, acidentalmente, derruba um pingo de água em mim, perdoo de verdade quando me pedem perdão e acredito com fé que o pedido foi de coração, deixo de lado as mágoas e facilmente substituo o coração partido pela satisfação do ‘desculpar’ uma atitude impensada, não fico brava quando alguém está dirigindo muito rápido ou devagar demais – será que eu mesma nunca precisei andar mais depressa pra chegar a tempo em algum lugar importante, ou bem mais devagar pra procurar uma rua ou ajudar minha filha a dirigir quando estava aprendendo? E, sim! Eu pego o papel higiênico e levo para minhas filhas quando elas dão falta e já não podem mais ir buscar, mesmo que o banheiro seja no andar de cima! Porque? Porque eu as amo e porque não me custa nada essa gentileza. E por aí vai … vou tentando ser feliz e entendendo, cada dia mais, que o que não se consegue por bem, por mal está perdido de vez! Ser gentil deveria ser ensinado em casa, deveria ser matéria de escola e, se não aprendido, deveria ser tema de palestra nas faculdades. Ser gentil deveria ser institucionalizadamente (nossa, essa palavra existe?) uma lei! Ser gentil deveria ser a base de tudo.
Afinal, gentileza à parte, eu AMO GENTE GENTIL e EDUCADA! Porque ser gentil é simplesmente maravilhoso, não é mesmo?