Pronto Falei e Ponto!

www.prontofaleieponto.com

Sobre a maré …

Desde pequena sempre ouvi todo mundo dizer ‘ele fica nadando contra a maré e nada dá certo’. Implicante, questionadora e irreverente como sempre fui – que me perdoe minha mãe – eu sempre achei isso uma babaquice. Ninguém tem o dever de aceitar a vida como ela ‘vem’ e de seguir o fluxo normal aceitando as propostas e respostas do Universo. A vida está aí pra ser questionada, desafiada e viver ‘fora da lei’ sempre me pareceu melhor do que seguir a maré.

Pois bem. Aos 17 anos eu já cursava uma faculdade – a que meu pai escolheu pra mim. Aos 19 cursava 2 faculdades – acrescentei a que eu queria. Aos 22 anos já trabalhava dentro da minha área de atuação e aos 24 me casei. Passei 7 anos lutando com vigor para manter a rotina de trabalho, casamento e todas as obrigações de uma vida de adulta. O meu sonho de ser dançarina deixei pra trás porque a vida e os Rolling Stones me ensinaram cedo que nem sempre a gente consegue o que quer – You can’t always get what you want, não é verdade? E toda vez que eu pensava nos meus sonhos, a minha nova vida, pela qual eu irreverentemente lutei, vinha como um trator e o sonho já era. Eu ainda lutava contra a maré, mas percebi aos poucos que a minha jornada não tinha sido planejada – eu estava apenas lutando contra a maré!

Quase 40 anos se passaram desde que aquela menina de 19 anos decidiu que a maré era pouco demais pra ela e que o mundo precisava de uma lutadora. Muito tempo se passou sem que eu percebesse que trilhar qualquer caminho desde que não fosse o que o Universo me dizia frequentemente que eu devia trilhar porque isso seria uma forma de aceitação muito simples, não era na verdade trilhar o meu caminho. Décadas se foram sem que eu me desse conta de que muitas de minhas escolhas, não eram escolhas, eram apenas a irreverente reação de um ser que buscava um caminho diferente mas, ao mesmo tempo, aceitável pela sociedade a ponto de não me fazer parecer inadequada, inapropriada, inconveniente, importuna e inaceitável.

E assim vivi mais da metade da minha vida sem perceber que a verdade por trás do ‘viver contra a maré’ é o que nos faz buscar muito além daquilo que precisamos para sermos felizes. Não é viver a vida sem desafios, sem aventuras, sem luta. É simplesmente acreditar que nada nessa vida acontece por acaso e que a maré é o Universo te empurrando para as coisas que estão escritas para você.

Se eu parar hoje e pensar em como seria minha vida se eu tivesse evitado a impertinente vontade de ser sempre do contra, a insuportável mania de pensar demais em tudo e tivesse apenas acreditado que as vezes os sinais do Universo são bússolas que vão me ajudar a seguir meu caminho, talvez hoje eu não estivesse aqui, depois de horas de terapia, tentando compreender onde foi que a ansiedade tomou conta de mim. Foi exatamente ali, onde o fardo – de mudar o destino do jeito que eu entendia ser o melhor – pareceu pesado demais, mas a teimosia me impediu de acreditar que eu estava onde tinha que estar e que a vida sempre se encarrega de nos colocar de novo no prumo. Foi exatamente quando eu decidi que eu não devia seguir maré nenhuma, quando eu duvidei do Universo, quando eu tentei mudar a minha história, que a ansiedade começou, sem eu perceber. Eu não vi, mas quando eu desisti dos meus sonhos, eu perdi meu rumo. Quando deixei de acreditar nos sinais, eu me desviei demais do meu caminho.

E apesar de hoje eu estar aqui, inteira, feliz, vivendo um dos meus melhores momentos, seguindo a maré, eu sei que poderia ter evitado muitos tombos feios no caminho. A verdade é que na desesperadora vontade de controlar tudo a minha volta, eu não parei pra entender direito o ‘ditado da maré’ e tampouco percebi que Mick Jagger havia deixado a melhor parte da música pra depois …

“You can’t always get what you want
But if you try sometimes, well, you might find …” 

Leave a comment

Information

This entry was posted on February 1, 2024 by .