
Mariana tem hoje 18 anos e eu ainda a olho e vejo nela aquela inocência de quando ela tinha 3 ou 4 aninhos e corria pela casa todinha me procurando. A gente brincava de pique esconde todos os dias e, apesar de eu me esconder todo santo dia no mesmo lugar, ela demorava muito pra me achar. E quando me achava ela gritava sempre a mesma coisa – ‘ah achei você mamãe bobinha’. Naquela época eu pensava – bobinha é ela; como ela não sabe que eu estou aqui? Hoje, ao ver a mulher que ela se transformou, e apesar de ter certeza de que ela não se lembra dessa época, sei que o que se passava naquela cabecinha era muito diferente. Era algo do tipo ‘deixa eu procurar ela bastante pra ela não perceber que eu sei exatamente onde ela se esconde todos os dias’. Pois é, minha pipoquinha é assim até hoje.
Linda por dentro e por fora, doce, verdadeira, sentimento e razão na medida certa, cuidadosa e amiga, daquelas que dão valor às pessoas e que acreditam na bondade humana, que ‘procuram o seu esconderijo por horas só pra você ficar feliz’, que abrem mão da razão pela paz e pela amizade. Ela não mudou. Acontece que hoje ela não tem mais tempo de brincar de pique esconde comigo, mas eu ainda fico ali no esconderijo por horas esperando que ela venha. Ela cresceu e eu não! Dificil pra caramba admitir isso, deixar ir o nosso filhotinho, desapegar e entender que ela ainda é aquela mesma menina doce, mas agora ela tem prioridades diferentes, ela quer o espaço dela, a privacidade dela – e ela tem direito a tudo isso – ainda que me deixe meio sem chão.
A gente sempre culpa a adolescência pela irritabilidade, que chega a ser desumana, de nossos filhos. e assim a gente atribui a eles o dever de sorrir mais, nos tratar com mais delicadeza, ficar mais tempo conosco, viver mais e mais ao nosso dispor. A gente cobra deles a criança que brincava de pique esconde com a gente. É que no fundo nós ainda os vemos com 4 anos chamando nosso nome pela casa e procurando nosso esconderijo. A gente se esquece do quanto a adolescência foi dura conosco e, pior, a gente não se dá conta de que eles são hoje o que fomos lá atrás. São pessoas tentando se entender e tentando entender o que o mundo quer deles daqui pra frente. O pique esconde não é mais o ponto alto do dia deles, entende?
As responsabilidades aumentam, o mundo fica maior e mais competitivo, o primeiro amor deixa cicatrizes, o sexo passa a ser ‘real’ e a cobrança social nesse sentido é repudiante, as sonecas da tarde são agora proibidas e não mais incentivadas por nós daquele jeito que só a gente sabia fazer – dorme filhinho do meu coração porque dormir engorda e eu quero você bem grandão. Não, agora dormir muito é sinônimo de preguiçoso. Agora o diálogo passa a ser na base da responsabilidade, das prioridades, dos deveres – sim é nossa tarefa enquanto pais cuidarmos disso também, mudar a chave, embutir naquela cabecinha o senso de dever. Mas se a gente tem que mudar a chave porque você acha que eles vão continuar exatamente como eram antes? Porque eles vão continuar brincando de pique esconde?
Nossos valores não mudaram e os deles provavelmente também não. Mas eles ainda não sabem disso. O que eles sabem é que aquela pessoa que antes embalava o soninho deles, hoje vive cobrando, confia pouco, tenta mudar o rumo da história deles com indiretas e as vezes ameaças, e, insistentemente, buscam resultados em tudo o que eles fazem. E ainda por cima essa pessoa ainda quer que eles procurem o mesmo esconderijo todos os dias! Pois bem, vamos a verdade crua do momento – não dá, não rola mais. E só quando a gente consegue entender que a brincadeira acabou e que não há mais a necessidade de manter os nossos esconderijos porque eles estão agora preocupados em encontrar outras coisas, outras pessoas, outros desafios – e que isso não é pessoal, mas parte da história – é que a adolescência (deles) começa a fazer sentido.
E assim a gente passa a ver nossos filhos não como extensão de nós mesmos, mas como pessoas e é assim que passamos a aceitar a maturidade deles, a vontade deles, as escolhas deles. Saímos do esconderijo em que nos metemos por tanto tempo porque entendemos que agora não dá mais pra esperar que eles venham nos procurar. A procura agora mudou e cabe a nós mudar a brincadeira. Agora nosso dever é ajudá-los a montar os grandes quebra-cabeças da vida, mas sem mostrar as peças pra eles- assim como a gente nunca falava onde ia se esconder. A gente já montou os cantinhos desses ‘puzzles’. Passamos a eles todos os valores que nos trouxeram até aqui e agora temos que deixar que eles encontrem as peças que irão completar o todo.
Eu me orgulho de ver minha menina montando o quebra-cabeça dela de maneira tão íntegra, verdadeira, sensível e tão comprometida. Ela sabe onde quer chegar, embora não veja a imagem pronta e não saiba ainda onde todas as peças estão. Ela deixa roupas pelo chão? Sim. Ela me procura basicamente para pedir comida e conselhos que as amigas não conseguem dar? Sim. Ela odeia quando eu pergunto coisas da vida particular dela? Sim. Ela está quase sempre com dores terríveis de cabeça que passam milagrosamente quando o namorado liga pra ela? Sim. Ela não me deixa escolher o vestido de prom dela? Não, não deixa (mas tem um bom gosto que eu invejo). Ela fala pouco, bem pouco comigo? Sim. Ela ama a Apple mais do que a mim? Acho que sim! Mas eu vejo que do jeito dela, ela está montando o quebra-cabeça e eu sei que lá na frente, quando ele estiver pronto, ela vai lembrar que eu ajudei a montar os cantinhos e que de lá, a partir desses cantinhos prontos, ela conseguiu encher o meio com todas as pecinhas corretas.
E embora o pique esconde ainda fique na nossa memória, em algum tempo montar o quebra-cabeça vai ser mais interessante e, acredite, não vamos mais nos lembrar das roupas espalhadas, dos monólogos que mantivemos com eles, das perguntas que não foram respondidas e das fofocas que eles não quiseram dividir com a gente. Quando o quebra-cabeça estiver pronto nós vamos nos orgulhar tanto daquilo que eles construíram que nada disso terá importância.