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O ‘conto’ do ‘ninho vazio’

É impossível saber o que se passa no coração de uma mãe quando o ‘ninho fica vazio’.

Essa mulher planejou, durante os últimos muitos anos, o batizado, verões especiais com direito a praia, montanha, piscina, sol, neve, tudo. Infinitas festas de aniversário com os mais diversos personagens e as mais fantásticas decorações, as fantasias mais mirabolantes da vizinhança para o carnaval ou para o halloween, formaturas, festas de 15 anos, sweet sixteen’s, home comings e proms. E, por fim, muitos, muitos albuns de foto, muitos posts, muitos stories, poses de todos os jeitos (na maioria das vezes forçadas), boomerangs, tiktoks, videos, reels, blogs, vlogs.

Foram muitos Natais com o ‘verdadeiro’ Papai Noel, que descia em seu trenó para deixar presentes na porta, enquanto ela, pendurada numa janela no segundo andar, fazia barulho de sininho, se engajava num ‘ho ho ho’ falsificado e corria descabelada pela escada para encontrar, lá embaixo, aquela criança lindamente vestida com seus gigantes olhos e o sorriso mais lindo do mundo no rosto.

Foram infinitas visitas ao pronto socorro, sustos intermináveis, noites sem dormir, 2,367 gotas de Tylenol e milhares de inalações em casa, em hotéis, em carros, em trens, em aviões, em navios. Foram 18 invernos, 18 primaveras, 18 verões e 18 outonos comprando roupas lindas, casacos e laços e meias e bonés e bonecas e carrinhos e, mais recentemente, remédios pra espinha, sapatos, bolsas, creme pra cabelo liso, condicionador pra cachos, celsius, anticoncepcionais e camisinhas (sim, normalmente são as mães que compram tudo, incluindo as camisinhas).

Foram anos estudando junto e tentando ensinar que um mais um é dois, que planície e planalto são coisas diferentes, que o quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos catetos e que o sujeito de uma frase é o elemento que pratica ou sofre a ação expressa pelo verbo, por exemplo na frase ‘Eles moram em Nova York’, ‘eles’ é o sujeito praticando a ação de voar, de começar uma nova jornada numa cidade diferente, com pessoas que irão daqui pra frente fazer parte do resto da suas vidas. A mãe não é sujeito, nem predicado, não se refere a nenhum verbo e não está na frase!

A mãe não vai. Ela que sobreviveu ao primeiro tombo, ao primeiro dia de aula, a primeira excursão da escola, ao primeiro dente que caiu ou foi arrancado pela porta, ao primeiro amor, ao primeiro coração partido, tem agora a missão de sobreviver ao primeiro dia com um espaço a menos na mesa. A sala de TV agora não tem mais disputa, a casa não tem mais o barulho da galera do ‘sleep over’, o quarto ficou grande sem todas as roupas jogadas pelo chão e as contas de luz e de água diminuiram 80% … que saudade de ouvir o chuveiro ligado por 1 hora.

Mas, se por um lado, a mãe sofre com a separação, por outro orgulha-se daquele ser que já não mais precisa dela para esquentar o leite, fazer o rabo de cavalo, levar pra escola, cobrar a lição. Ela fica feliz porque aquela pessoa linda deixa o ninho vazio, mas se aventura numa jornada dificil, por vezes solitária, desafiante e única. Tem medo, tem dúvidas, tem ressalvas. Mas tem sonhos, objetivos e uma força incrivelmente persistente. Tem a garra que só aquela mãe poderia ter lhe ensinado. Tem a vida inteira pela frente. E a mãe se orgulha dessa despedida. Porque é na despedida que ela testa sua força. É no até-breve que ela entende que o ninho não está vazio. Ele está sendo preparado para as voltas, para as infinitas coisas novas que ambos, mãe e filho, viverão nessa nova caminhada. O ninho foi apenas o começo de tudo. O importante agora, é a jornada. É o destino.

E entre mil pensamentos, a mãe, que já chorou mas que agora sorri quando vê as malas todas prontas, entende que a vida é uma sequência de despedidas e reencontros para os quais apenas os mais fortes são convidados. Não há como avançar sem deixar versões para trás, sem se despedir do que precisa mudar. O novo exige o desapego. E agora mãe e filho percebem que a vida não acaba quando fechamos ciclos, ela recomeça.

E então, a mãe olha bem no fundo dos olhos daquele ser que ela trouxe até aqui, e com uma mistura de tudo acontecendo na mesma hora dentro daquele coração, ela deseja que o recomeço seja escandalosamente feliz, que não haja traumas nem amarras, que as asas estejam preparadas para alçar o vôo e que quando der medo, o filho possa lembrar do seu abraço. Ela deseja que nenhuma barreira seja grande demais, que seu ‘bebê’ não empaque nas tristezas e desilusões, que atraia a galera do bem, que dance na rua, nas festas, na chuva. Ela torce para o tempo passar rápido pra chegar o dia do reencontro, mas espera que o tempo passe suficientemente devagar para que os dias possam ser aproveitados com leveza e alegria. Ela espera que o facetime funcione direitinho quando eles se falarem, mas pede ao universo que as interações da sua ‘criança’ sejam menos virtuais daqui pra frente, e que sejam verdadeiras, leais, intensas, que façam doer a barriga de tanto rir e criem laços para toda a vida.

E assim, aos poucos, vendo todas as novas e lindas possibilidades que se abrem para aquele jovem adulto, a mãe solta. E ele vai. A vida continua. E no Natal começa tudo de novo.

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This entry was posted on August 20, 2024 by .

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