Num dia em que a igreja celebra a sexta-feira Santa, o dia em que Jesus morreu na cruz por nossos pecados, nos deparamos com a maior de todas as dúvidas: PORQUE? Eu sou católica desde que nasci, mas confesso que a religião mesmo, a minha crença em Deus, na criação Divina e no amor de Jesus Cristo, desenvolvi depois de adulta. Na minha infância estudei em colégio de freira — e meu foco era entender como aquele véu parava na cabeça daquelas mulheres — e no estudo das aulas de religião, diárias, foi onde conheci Deus. Mas não cresci num ambiente em que ir a igreja, confessar seus pecados, comungar, ou mesmo rezar a noite e agradecer todas as manhãs mais um dia concedido, fosse importante, ou essencial.
Meu pai acreditava em algo, mas não viveu o bastante para me descrever sua crença; ele agradecia a Deus todos os anos, em nossa festa de Natal, por mais aquele ano e pela ‘união’ de nossa família — basicamente por estarmos todos ali reunidos naquele único dia do ano. Mas era isso, e ponto. E desde que me entendo por ‘gente’ lembro-me de minha mãe com mais dúvidas que crenças; n!ao digo que é ceticismo, porque isso não explica o relacionamento dela com a religião. É menos, é incredulidade, pirronismo, desesperança. As vezes penso que é de verdade, uma forma de irreliogisidade. E ainda assim, sempre tive em casa e em meus pais os maiores exemplos de sinceridade, amor ao próximo e perdão.
Cresci sabendo que a vida não é justa todas as vezes, mas que o maior exemplo de humildade e amor que alguém pode dar a outrem, é o perdão. E depois de viver muito (se me chamar de velha não perdoo de jeito nenhum!), e de decidir que eu precisava acreditar em mais, que eu precisava me dedicar mais, que minha religião tinha que ser diferente da de meus pais, mais forte, mais presente, e depois de decidir que eu queria passar isso para minhas filhas, entendi que o perdão não está na reza, na Bíblia, na sacristia, na confissão, no comungar. O perdão está, na verdade, dentro de cada um de nós. É por isso que, embora nunca tenham dedicado a vida ao catolicismo e suas práticas, meus pais sempre souberam perdoar e me ensinaram isso muito bem.
Perdoar é uma forma de se entregar, de dar a outra face, de escolher o bem. É um caminho. E só perdoa quem tem a capacidade de enxergar além do mal, além do material, além da rotina do dia-a-dia. Só sabe perdoar quem sabe amar. E cá entre nós, o sentimento de dizer ‘me perdoa’ é algo inexplicável. É libertador, encantador e ao mesmo tempo amedrontador. Liberta e encanta porque traz paz e nos faz sentir-se mais humano, melhor. Dá medo porque é abertura, porque é doação, é desapego, é ‘des-orgulho’. Perdoar é para poucos. Desculpar, muita gente desculpa. Deixa pra lá, passa por cima, põe de lado, finge que não viu, se faz de besta. Mas perdoar é muito maior. É carregar sua cruz por mais pesada que ela seja, cair 3 vezes e levantar sozinho e ainda assim ter forças para enfrentar os obstáculos, para caminhar lado-a-lado com aquele que te julgou e que te fez sofrer. É dar um passo gigante na direção da paz, da união. Perdoar, meu amigo, é divino! Tirar aquele rancor de dentro de você, bater um papo com ele e jogar ele de vez pra longe é um salto que nem sempre se consegue dar. E não há religião, igreja, crença, confissão, dízimo, nem oração no mundo que substitua o perdão ou que te faça ser melhor sem que o perdão não exista dentro de você.
Eu brigo, tu brigas, ele briga, nós brigamos, gritamos, chutamos o gato, batemos a porta, jogamos tudo no chão — no meu caso tudo que não quebra porque não dá perdoar desperdício, não é? Mas no fundo, lá no fundinho, a gente sabe que vai perdoar. Porque nós não somos Jesus (nossa, quanta pretenção sequer dizer isso), mas porque nós fomos perdoados por Ele, porque nós fomos feitos à imagem de Deus e porque nós trazemos o perdão dentro de nossos corações. E ainda que pelo menos uma vez por semana te dê uma vontade imensa de publicar no seu perfil do facebook aquela frase “famosa” — Perdoar é divino, mas manda a merda é delicioso! — você sabe que mandar a merda é totalmente inútil; porque depois de mandar a merda você vai se arrepender … e vai perdoar, mas vai ter que pedir perdão também!
A paciência é a chave de tudo. A minha chave perdi há algum tempo e isso não me deixa nada orgulhosa, mas é a pura verdade. Tenho envelhecido com menos paciência e meu maior medo é o rancor — porque o rancor é o antônimo do perdão; o rancor é a treva, é o inferno que nos leva à depressão, ao isolamento e à solidão. Perdoem-me os que tenho magoado. Sempre tento melhorar. Tento compensar lembrando que cada dia é um outro dia e a cada noite se renova nossas chances de perdoar, de acertar; e nossa esperança de sermos melhores e construirmos um mundo melhor para nossos filhos. Um mundo de paz, paciência e perdão. Um mundo melhor do que esse em que vivemos hoje, onde não há tempo para perdoar, onde perdoar é ser fraco, onde o perdão é perda de tempo. Um mundo mais humano, mais bonito, mais justo. Onde você possa perdoar, e ser perdoado!
“Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos os que nos ofenderam” Mat. 6:12.
I FORGIVE YOU … LINDO VÍDEO … https://youtu.be/FxoMbPWuk0I
Cristiane belíssimo texto , parabéns !!! Acredito que com o tempo ( a famosa maturidade , rrsss ) podemos perceber o quão pequenos somos diante do rancor e outros sentimentos pequenos , e com isso começamos e ver a dimensão do Bem e do Amor em nossas vidas em nos desprendermos desses sentimentos pequenos , das mágoas…. E aí começamos a nos perdoar , a de fato dar sentido a nossa existência .. Porque certamente iremos desta para outra , e por que não aproveitarmos com sabedoria , amor e muitas alegrias o aqui e o agora ??
Grande abraço , gosto muito dos seus textos
Mariana Coelho
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