
Hoje assistindo um vídeo desses que as pessoas compartilham no Facebook eu me peguei pensando, qual a diferença em ser e fazer. No vídeo a mensagem principal era ‘spend more time being, than doing’ (passe mais tempo sendo do que fazendo).
Chega um momento na vida em que você olha para trás e percebe que já fez muita coisa …
Você já acreditou na fada do dente e já foi fada do dente pros seus filhos; você já se formou de beca e tudo, já fez estágio daqueles que não te pagavam nada e nos quais você tirava cópias o dia inteiro, depois disso se matou mas conseguiu seu MBA e já foi diretora de uma grande equipe que te trouxe muito orgulho de ter chegado ali; você já casou, descasou, casou de novo, deu com a cara na parede mil vezes, amou, foi amada, desamou, tomou um pé (ou vários), sonhou com príncipe encantado, achou o sapo mas o beijo não funcionou, viveu de recordações daquele amor de verão, quiz correr do altar e no final das contas percebeu que a vida tem seu rumo e que é com esse rumo que as coisas vão se ajeitando e que o coração acalma; você lutou pra ser diferente do que seus pais eram, viveu buscando ironizar e chegou a conclusão de que eles sabiam de tudo, sabiam mais do que você imaginava e você perdeu a oportunidade de aprender mais com eles.
É. Você fez muita coisa boa e muita merda também. E aí você se pergunta: quem ‘fui’ eu nesse amontoado de afazeres, de busca e de exaustão? Quem ‘sou’ eu hoje, depois de todas essas experiências vividas e compartilhadas com tanta gente que chegou, que ficou, que saiu, que foi tirada da história sem que você quisesse ou estivesse preparada?
Acho que passei muito mais tempo fazendo do que sendo. E pra ser honesta, nem sei ao certo se sei o que é ‘ser’. Eu que já fui criança mimada, adolescente rebelde, namorada maluca, assistente da assistente do assistente, diretora da multinacional, mãe super protetora, mãe que esquece de tudo, esposa nas horas vagas, esposa em tempo integral, ‘mãe-torista’, dona de casa, conselheira, empresária, a louca do condomínio, a barraqueira da escola, a nerd que só estudava, a imigrante desnorteada … eu sou exatamente quem? Sou muitas em uma só ou sou ninguém porque na verdade nunca me achei? Fiz mais do que fui, ou consegui a perfeita equação do ser mais do que fazer? A resposta, não sei. Só sei que minha medida é a felicidade.
Portanto, e por mais lindo que seja o vídeo produzido pela equipe inglesa, onde sete entre dez mulheres se sentem pressionadas diariamente a serem a ‘mulher perfeita’, eu venho a público dizer que não sei o que é ser perfeita, não sei se ser mais do que fazer me levaria a um destino diferente do ‘hoje’ e não tenho certeza de que não acabei ‘sendo’ enquanto ‘fazia’. Tenho orgulho de cada pedacinho de coisa que realizei, que fiz. E sei que cada uma das coisas que fiz na vida me transformaram no que sou hoje. Ser mais? Ser mais feliz? Ser mais interessante? Ser mais completa? Ser mais bonita? Acho que posso ser o que eu quiser, contanto que minhas ações me levem a isso. E sim, tenho certeza absoluta de que passei muito tempo na vida ‘não sendo eu’ – fui, muitas vezes, aquela que jogou o jogo, nadou a favor da maré e andou nos trilhos. Mas até essas coisas me ajudaram a ser o que sou hoje, não porque elas me definem, mas porque elas me ensinaram a reagir contra o que não quero ser. E sim, tenho mágoas! Deixei pra trás muitas coisas sem fazer e muitas vezes sonhei sonhos que não foram realizados. Talvez eu não escolhesse a mesma carreira se tivesse acreditado mais em meus sonhos. Mas, então, eu não seria eu – seria uma outra pessoa e com certeza teria outros vazios. Seria mais feliz?
A grande verdade é que a vida nos leva, o destino nos acolhe e o que tem que ser, será. No tempo certo, quando o Infinito estiver preparado e quando nossas amarras já puderem ser soltas por nós mesmos. Só uma coisa pode nos conter: o medo. Portanto acho que a colocação certa não é ‘if I were young again I would spend more time being, than doing’ (se eu fosse jovem novamente passaria mais tempo sendo que fazendo). Pra mim o certo é ‘if I were young again I would be myself over and over and would DO everything again until I become me‘ (se eu fosse jovem novamente faria tudo de novo pra me tornar eu mesma).
Não me leve a mal, o vídeo é lindo. E sim todos nós gostaríamos de ter feito coisas que ficaram sem ser feitas; gostaríamos de ter ido a lugares que nunca pudemos ir; gostaríamos de ter vivido emoções que nos foram tomadas. Mas não me arrependo de nada. Talvez fizesse mais coisas … muito mais … mas eu gosto de onde cheguei, e com quem cheguei.
E a vida continua me surpreendendo, sempre!
Mensagem forte , para uma vida inteira , sem cortes e emendas , muito bom – abrs
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